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O novo playbook de GTM para empresas em transformação

em empresas que estão mudando produto, mercado ou modelo de negócio, go-to-market precisa operar como um sistema contínuo de escolhas e aprendizado, não como um plano de lançamento isolado.

Imagem editorial sobre go-to-market em transformação

Uma empresa pode mudar o produto e continuar vendendo como antes. Pode subir de segmento e manter a mesma mensagem. Pode adotar IA, rever pricing, abrir um novo canal e ainda assim preservar um go-to-market desenhado para outra fase do negócio.

É aí que a transformação costuma chegar ao mercado pela metade.

Go-to-market, ou GTM, é o conjunto de escolhas que define como uma oferta chega aos clientes certos e converte essa chegada em receita. No uso mais tradicional, aparece associado ao lançamento de produtos, serviços ou à entrada em novos mercados. [1] Em uma empresa em transformação, porém, tratar GTM como um documento de lançamento é estreito demais. Mudanças relevantes alteram quem compra, por que compra, quem influencia a decisão, como o valor é demonstrado, quais canais fazem sentido e o que precisa acontecer depois da venda.

O novo playbook começa por aceitar uma ideia simples: GTM precisa acompanhar a mudança do negócio na mesma velocidade em que o mercado percebe essa mudança.

O mercado não encontra a empresa em um único canal

A jornada B2B ficou mais fragmentada. A pesquisa B2B Pulse 2026 da McKinsey ouviu quase 4 mil decisores em 13 países e encontrou compradores usando, em média, dez canais ao longo da jornada. A expectativa por transições fluidas entre interações presenciais, remotas e digitais já aparece como parte do padrão de compra, não como diferencial opcional. [2]

Isso muda o trabalho de GTM.

A pergunta deixa de ser apenas qual canal gera mais leads e passa a incluir como os canais se combinam. Um comprador pode descobrir a empresa por conteúdo, pesquisar sozinho, pedir indicação a alguém da rede, conversar com Vendas, envolver Segurança ou Financeiro, testar o produto e voltar ao site antes de aprovar a compra. Se cada ponto conta uma história diferente, a quantidade de canais aumenta enquanto a confiança diminui.

Omnichannel, nesse contexto, não significa estar em todo lugar. Significa preservar contexto, proposta de valor e capacidade de avançar a decisão quando o comprador muda de lugar.

A pessoa que fala com Vendas não é o mercado inteiro

Outro ajuste importante está no próprio conceito de comprador.

Em negócios B2B mais complexos, a decisão costuma envolver um buying group: o conjunto de pessoas que influencia, avalia, aprova, usa ou bloqueia uma compra. Parte desse grupo pode permanecer invisível para o vendedor durante boa parte do processo.

A pesquisa de 2025 da Edelman com o LinkedIn sobre thought leadership B2B chama esses participantes de hidden buyers. O estudo aponta que mais de 40% dos negócios B2B analisados travam por desalinhamento dentro do grupo de compra. [3] Isso não prova que todo negócio perdido tenha a mesma causa, mas expõe um problema de desenho: uma estratégia dirigida apenas ao contato principal pode estar otimizando a conversa errada.

Um GTM mais robusto precisa saber quem sente o problema, quem controla orçamento, quem avalia risco, quem opera a solução e quem pode vetá-la. Essas pessoas não precisam receber a mesma mensagem. Precisam encontrar uma lógica de valor compatível entre si.

É diferente vender produtividade para o usuário, retorno financeiro para a liderança e redução de risco para uma área de governança. A oferta continua sendo a mesma; o critério de decisão muda.

A transformação precisa aparecer na proposta de valor

Empresas em transformação frequentemente adicionam capacidades mais rápido do que atualizam a forma de apresentá-las.

O resultado é um catálogo. Novas features, IA, serviços, integrações, consultoria e automações entram no discurso, mas o cliente continua sem entender por que deveria mudar seu comportamento ou seu fornecedor.

Proposta de valor não é inventário do que a empresa faz. Ela conecta uma mudança observável no trabalho do cliente a um problema relevante e a uma razão para acreditar que aquela empresa consegue produzir o resultado.

Por isso, redesenhar GTM durante uma transformação exige revisar pelo menos quatro relações: segmento e problema prioritário; problema e oferta; oferta e evidência; evidência e processo de compra.

Se uma delas quebra, Marketing pode gerar interesse que Vendas não consegue converter. Vendas pode fechar uma expectativa que Produto ou Delivery não sustenta. Customer Success pode receber clientes cujo caso de uso nunca esteve bem definido.

A incoerência aparece como problema de funil, mas nasceu antes dele.

O playbook precisa aprender com a receita que produz

O GTM clássico costuma ser desenhado como sequência: definir mercado, lançar campanha, gerar pipeline, vender. Em ambientes de mudança, a sequência precisa de retorno.

Quais segmentos convertem com menos fricção? Onde o ciclo desacelera? Qual promessa gera oportunidade e qual gera cliente saudável? Que objeções surgem em Financeiro, TI ou Jurídico? Quais clientes ativam rápido? Quem expande? Que tipo de venda termina em churn?

Esses dados não pertencem a uma única área. São sinais do sistema comercial.

A pesquisa da McKinsey mostra também que empresas B2B estão combinando canais, dados, personalização e IA em seus modelos comerciais, enquanto compradores elevam a expectativa por interações consistentes. [2] A implicação útil não é copiar a tecnologia de quem está na frente. É garantir que o GTM consiga aprender com o que acontece da aquisição à retenção.

Um playbook vivo transforma essas evidências em decisões: ajustar ICP, reposicionar uma oferta, mudar critérios de qualificação, retirar um canal, introduzir self-service, redesenhar onboarding ou ampliar participação de especialistas em determinada etapa.

O que merece ficar fixo e o que deve continuar móvel

GTM contínuo não significa mudar toda semana.

Algumas escolhas precisam de estabilidade suficiente para gerar aprendizado. Se ICP, mensagem, canal e pricing mudam simultaneamente a cada resultado ruim, a empresa perde a capacidade de saber o que funcionou. O sistema vira reação.

O desenho mais útil separa hipóteses estruturais de variáveis experimentais. A empresa sustenta uma tese clara de mercado por tempo suficiente para testá-la, mas define sinais que justificam revisão. Isso cria disciplina sem transformar o playbook em dogma.

Há uma diferença importante entre persistência e inércia. Persistir é manter uma hipótese enquanto a evidência ainda é inconclusiva. Inércia é manter o modelo depois que a realidade já mostrou que ele deixou de servir.

Para empresas em transformação, o verdadeiro ativo de GTM não é um documento perfeito. É a capacidade de conectar mudança interna, comportamento de compra e evidência de mercado antes que a distância entre eles vire perda de receita.

O blueprint de GTM precisa caber em decisões

Um bom playbook não começa por canais. Começa por decisões que tornam o mercado mais legível.

Mercado e ICP. Em qual contexto o problema é relevante o suficiente para justificar mudança? Quais segmentos parecem atraentes, mas drenam capacidade sem converter?

Buying group. Quem usa, quem influencia, quem aprova, quem pode vetar e quem responde pelo risco? Em compras complexas, a unidade de decisão é o grupo, não o lead individual.

Problema e alternativa atual. O que o cliente faz hoje? Concorrente não é apenas uma empresa semelhante. Pode ser planilha, processo manual, fornecedor generalista ou simplesmente não fazer nada.

Proposta de valor e prova. Qual consequência muda e que evidência torna essa promessa crível? A prova pode variar por stakeholder: resultado operacional para um usuário, segurança para TI, retorno para finanças.

Oferta, pricing e packaging. Como o cliente compra? A estrutura comercial facilita começar, expandir e entender o valor ou adiciona negociação e customização a cada contrato?

Motion de aquisição e venda. Inbound, outbound, parceiros, self-service, vendas consultivas e eventos podem coexistir, mas cada um precisa de função clara e economics compatíveis.

Onboarding, adoção e expansão. O GTM só termina quando a promessa vendida encontra um sistema capaz de entregar e capturar valor ao longo do relacionamento.

Esse blueprint funciona como mapa de hipóteses. Ele não precisa ser preenchido de uma vez nem congelado. Precisa deixar visível o que a empresa acredita sobre como o mercado compra e como essas crenças serão testadas.

Transformação muda o GTM em lugares diferentes

“Estamos em transformação” é amplo demais para orientar a motion. O tipo de mudança determina qual parte do GTM precisa ser reaberta.

Quando a empresa sobe de SMB para mid-market ou enterprise, aumentam buying group, exigência de prova, segurança, procurement, ciclo e necessidade de account planning. O produto pode ser o mesmo, mas o sistema comercial não é.

Quando entra em novo segmento vertical, linguagem, dores, cases e stakeholders podem mudar antes mesmo do produto. Um ICP que parecia funcional por tamanho deixa de explicar por que certos setores convertem melhor.

Quando lança novo produto para a base, o problema pode ser menos aquisição e mais expansão: identificar sinais de necessidade, habilitar CS e vendas, ajustar packaging e provar valor incremental.

Quando muda pricing ou modelo de receita, a proposta econômica muda junto. Conversão pode cair enquanto qualidade de cliente melhora. Avaliar a alteração apenas por win rate pode induzir a empresa a voltar atrás cedo demais.

Quando incorpora IA à oferta, o mercado pode exigir novas respostas sobre segurança, governança, responsabilidade e qualidade. Uma feature de IA também pode alterar o resultado entregue e, portanto, o próprio posicionamento.

Crie uma cadência de revisão de GTM

Playbook útil tem versão. Para empresas em transformação, uma revisão a cada seis a oito semanas pode ser mais eficaz do que um “planejamento de GTM” anual, desde que não vire mudança permanente de direção.

A revisão deve olhar para evidências, não para preferência de área:

  • segmentos com maior e menor conversão;
  • motivos de perda e não decisão;
  • stakeholders presentes nas vitórias e ausentes nas perdas;
  • canais que geram pipeline qualificado, não apenas volume;
  • objeções novas;
  • tempo até valor depois da venda;
  • expansão e churn por cohort;
  • pontos em que promessa comercial e experiência entregue divergem.

A pesquisa B2B de 2026 da McKinsey encontrou compradores usando em média dez canais e tratando continuidade entre eles como expectativa básica. [2] Isso torna importante revisar também coerência: a conta recebe a mesma proposta de valor no site, no conteúdo, na conversa comercial e no onboarding?

O GTM moderno precisa ser defensável pelo buying group

O relatório LinkedIn-Edelman de 2025 mostrou que hidden buyers consomem e usam thought leadership durante avaliação de fornecedores, apesar de muitas vezes não aparecerem nos sinais tradicionais de marketing. [3] Em 2026, pesquisa LinkedIn/Bain avançou a ideia de “buyability”: a capacidade de uma marca se tornar uma escolha que o grupo consegue defender internamente. [4]

A implicação prática é importante. Mensagem orientada apenas ao usuário ou champion pode gerar entusiasmo e ainda perder no comitê. O playbook precisa preparar ativos e argumentos que respondam a risco, integração, retorno, continuidade, compliance e viabilidade operacional quando esses critérios forem materiais.

Isso não significa produzir um deck diferente para cada cargo. Significa saber quais objeções representam a decisão coletiva e construir prova suficiente antes de a oportunidade chegar ao fim do processo.

O painel de GTM precisa separar diagnóstico de performance

Uma queda de receita pode ter origens muito diferentes. Menos demanda, pior conversão, ciclo mais longo, ticket menor, churn maior ou capacidade de vendas reduzida produzem o mesmo sintoma no topo.

Por isso, acompanhe o funil por camadas:

Camada

Métricas que ajudam a diagnosticar

Mercado

alcance no ICP, contas engajadas, demanda capturada

Pipeline

oportunidades qualificadas, cobertura, origem, buying-group coverage

Venda

conversão por etapa, ciclo, desconto, perda e no-decision

Entrega

tempo até valor, ativação, adoção

Base

retenção, expansão, contração e churn

O objetivo não é construir um dashboard enorme. É conseguir responder onde o GTM está perdendo força e qual hipótese explica isso.

GTM deixa de ser um documento de lançamento quando se torna o sistema que conecta mercado, produto, receita e aprendizado. A empresa não precisa mudar tudo o tempo todo. Precisa saber o que é hipótese, o que já foi provado e qual evidência justificaria uma mudança.

Fontes

[1] SERASA EXPERIAN. “O que é go to market e como montar uma estratégia de lançamento?” 5 mar. 2026. https://www.serasaexperian.com.br/conteudos/go-to-market/

[2] McKINSEY & COMPANY. “The surprising economics of B2B growth: The new survival threshold—and what it takes to thrive.” 28 maio 2026. https://www.mckinsey.com/capabilities/growth-marketing-and-sales/our-insights/the-surprising-economics-of-b2b-growth-the-new-survival-threshold-and-what-it-takes-to-thrive

[3] LINKEDIN; EDELMAN. “How B2B Marketers Can Use Thought Leadership to Persuade Hidden Buyers.” 29 set. 2025. https://www.linkedin.com/business/marketing/blog/research-and-insights/b2b-thought-leadership-influence-hidden-buyers

[4] LINKEDIN. “The Principles of Buyability: Why Strong Deals Stall and What Separates the Vendors Who Get Chosen.” 11 jun. 2026. https://www.linkedin.com/business/marketing/blog/research-and-insights/the-principles-of-buyability-why-strong-deals-stall-and-what-separates-the-vendors-who-get-chosen

Rodrigo Leo Schramm, Diretor de Marketing da MinMax
Rodrigo Leo Schramm Diretor de Marketing

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PorLucas W. Portella

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